Maria Augusta's profile"Eu não sou eu nem sou o...PhotosBlogLists Tools Help

Blog


    Chamando os Complicados

     
     
     

    " Depois de vinte minutos de dança no sopé do Edifício San Pablo, o vendedor de sonhos pediu novamente silêncio para a multidão remanescente. Eufóricas, as pessoas pouco a pouco se aquietaram. Para o espanto de todos, ele proclamou um verso em voz alta, como se estivesse no alto de um monte:

     

    Muitos dançam sobre o solo,

     

    Mas não na pista do autoconhecimento.

     

    São deuses que não reconhecem seus limites.

     

    Como poderão se achar se nunca se perderam?

     

    Como serão humanos se não se aproximam de si?

     

    Quem são vocês? Sim, digam-me, quem são?

     

    As pessoas ficaram com os olhos regalados. Elas haviam acabado de dançar numa pista improvisada, mas agora o promotor da festa introduzia uma outra pista e as questionava se eram humanas ou divinas. Vários homens bem-trajados, em especial aqueles que não haviam dançado e estavam na posição de críticos, ficaram atordoados. Diariamente estavam vidrados na cotação do dólar, nas cotações da bolsa de valores, em técnicas de liderança empresariais, em carros, hotéis, mas muitos jamais haviam dançado na pista do autoconhecimento, jamais haviam sido caminhantes no território psíquico.

     

    Viviam vazios, entediados, ansiosos, inundados de tranqüilizantes. Não se humanizavam. Eram deuses que morriam um pouco a cada momento, eram deuses que negavam seus conflitos.

     

    Vendo a multidão silenciada, ele expandiu seu discurso:

     

    — Sem filosofar a vida, viverão na superfície. Não perceberão que a existência é como os raios solares que despontam solenemente na mais bela aurora e se despedem fatalmente no ocaso. — Alguns o aplaudiram sem entender a dimensão do seu raciocínio e sem perceber que estavam próximos do entardecer."

     

     

    Trecho retirado Cury, Augusto. O vendedor de Sonhos: O chamado. p. 59. (Livro).